Folhas verdes e uma carta reveladora
Folhas verdes espalhadas pela minha mesa. Não que eu não tivesse outras folhas, mas foram as primeiras que encontrei e eu precisava muito escrever aquela carta.
Passei os últimos meses tentando entender se minhas ações foram certas ou erradas, se soube te amar da maneira que você mereceu e se minhas críticas haviam, de certa maneira, sido construtivas para você, mas cheguei a conclusão de que, em meio a tantos compromissos e uma vida corrida, eu havia esquecido de te amar como deveria e passado a te criticar para substituir esse amor.
Foi aí que sonhei. Sonhei a noite inteira um sonho longo, onde eu te perdia de maneiras diferentes, onde sua presença me fazia falta, onde por alguns minutos eu chorava uma quantidade que eu pensava não ser possível. Quando acordei estava coberta por lágrimas e tais me fizeram sentir que o sentimento era verdadeiro e que eu precisava me desculpar antes que eu perdesse essa oportunidade.
Acordei, liguei a pequena luz de minha mesa de estudos e abri a gaveta. Haviam somente aquelas folhas sulfites verdes que eu utilizo de rascunho disponíveis, e foi nelas que comecei a escrever o que sinto por você.
Em um resumo das palavras eu diria que o texto girou em torno de algo como: "Peço perdão por te fazer sofrer por decisões mal pensadas e um amor pouco correspondido, mas que é, e eu juro, verdadeiro".
Sim, eu te amo, espero me ver no futuro com você, mas só posso lhe contar isso com palavras escritas, já que, apesar de parecer muito boa em eventos públicos como oradora, tenho receio de fazer declarações por meio de palavras, de deixar minhas lágrimas me consumirem em público.
Já fui considerada chorona e muito sensível, mas preciso deixar isto passar, e fazer estas emoções fluírem desta maneira foi o meio mais seguro que encontrei.
Saí as pressas, morávamos longe mas eu fui, de madrugada, até sua casa e vi. Vi todo aquele fogo se espalhando e todos dormindo lá dentro. Vi você indo embora.
Eu corri, corri com todas as minhas forças, abri o portão de sua casa com a chave que tinha, empurrei a porta podre em chamas e entrei em sua casa, sem saber se morreria ou não.
Você estava inconsciente e eu te arrastei pelas chamas. Me queimei nas pernas, nos braços, minha roupa ardia ao se derreter pelo meu corpo, mas eu precisava te salvar. Ninguém estava ajudando e eu estava te perdendo.
Te larguei na calçada e fui ajudar seus pais, o fogo estava consumindo tudo mas eles estavam a salvo. Conseguiram sair. Sua irmã estava presa e arrastei-a comigo para a rua.
Eu estava com dores por todo o corpo, não sabia de onde minhas forças haviam saído.
Rastejei até o portão e te vi de pé, salvo. Foi quando vi que havia cumprido minha tarefa. Eu havia o salvado.
Eu não sabia o que pensar, só imaginava na carta que havia lhe escrito e tirei-a do bolso. Quando a entreguei a ele tudo se apagou, mas eu soube que, se algo acontecesse comigo ele saberia que minhas intenções foram sempre as melhores e que ninguém no mundo poderia substituir sua presença ao meu lado. Eu o amava.